Foi-se um dos últimos gênios…

Em 2009 eu tive o prazer e a honra de entrevistar o Johan Cruijff para um programa da Sony na TV japonesa. Foi o primeiro job da FutBiz, empresa da qual fui sócio durante alguns anos, e certamente o momento em que eu entendi que poderia estar onde e com quem eu quisesse. 

Foi tudo muito louco. Como muitos dos poucos gênios que ainda estão por aqui, a personalidade dele era forte e sua fama não era das melhores em se tratando de entrevistas. Não bastasse o nervosismo natural de uma entrevista que eu nem sabia em qual idioma seria, com um cara que não era dos mais simpáticos, alguns imprevistos completaram o cenário.

Chegando em Barcelona, depois de uma conexão relâmpago em Amsterdam, a primeira surpresa foi o extravio da minha bagagem. Como a entrevista estava marcada para o dia seguinte isso não me causou um grande susto, já que a previsão de entrega era no mesmo dia. 

A coisa começou a ficar mais tensa quando, saindo para o saguão do aeroporto, encontrei meu sócio (surpresa!!!) e fui informado de que a entrevista de amanhã seria imediatamente. Nosso craque visitaria sua filha pertinho do Brasil, na Argentina, e se não fizéssemos agora perderíamos a viagem. 

A roupa passou a ser a menor das preocupações, e estudar o roteiro em inglês e espanhol nos próximos 40 minutos passou a ser prioridade.

Chegamos a um clube de golfe perto de sua casa, nos arredores de Barcelona, e lá estava ele com alguns amigos no restaurante. Como teríamos apenas 30 minutos para fazer a entrevista, conforme entendimento prévio, o pessoal da produção foi preparando tudo para que ele viesse somente quando estivéssemos prontos. 

Mas a partir daí as surpresas foram as melhores. Ele chegou com um sorrisão, cheio de simpatia e engatamos uma conversa animada sobre futebol. Foi, sem dúvida, uma grande aula proporcionada por um gênio da bola. Oportunidade única de entender um pouquinho de como pensa o grande nome da Seleção Holandesa, que revolucionou o futebol na Copa de 1974. A entrevista em si, que deveria durar 30 minutos, se estendeu por quase uma hora, seguida de um tour pelo clube e mais uma conversa cheia de bom humor e sem papas na língua, como era característico. 

Certamente todo aquele nervosismo que antecedeu a entrevista foi potencializado pela viagem cansativa, as incertezas de um job que me foi passado como uma bola quadrada, mas também pela responsabilidade de entregar à Sony um material à altura da oportunidade que ela estava me dando, de conhecer um pouco mais de um dos grandes nomes do futebol mundial. 

Foi-se Cruijff mas fica o legado e o desafio para que as próximas gerações criem algo tão grandioso quanto a Laranja Mecânica. 

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