Quando a força do esporte é usada para o bem 

Mesmo correndo o risco de parecer ultrapassado, eu sempre entendi o esporte como um agente transformador da sociedade e o atleta como uma pessoa que não deve perder a oportunidade de servir como exemplo. Não de uma forma careta, forçada, fabricada, mas com verdade, mostrando caminhos para que a cidadania faça parte do dia a dia. Infelizmente parece que isso está cada vez mais difícil, não fosse por ações que destoam da prática comum.

É óbvio que educação vem de casa, não deve ser terceirizada, mas também não é falso afirmar que pessoas que ocupam posições de destaque servem como exemplo não só para as crianças, mas para a sociedade de um modo geral, ainda mais em um mundo tão conectado como o que vivemos. Também é verdade que as notícias negativas repercutem mais que as positivas, mas talvez por isso mesmo esteja na hora de um volume cada vez maior de ações do bem tomarem espaço nesses aparelhos que não desligamos 

Exemplos, tanto positivos quanto negativos, têm entrado cada vez mais em nossas casas nos últimos tempos por meio do esporte. Entre os positivos eu destacaria duas ações que aconteceram no Campeonato Brasileiro de Futebol. No mês de agosto, o Corinthians alterou seu uniforme em uma ação que remetia ao Mc Dia Feliz, do Instituto Ronald McDonald. O time abriu mão de usar os meiões com suas cores tradicionais no jogo contra o Cruzeiro para jogar com os alvirrubro do palhaço Ronald, e assim contribuir para a arrecadação de fundos para assistência a crianças com câncer. Mais que aumentar a visibilidade de uma campanha já consagrada em todo o país, o Corinthians sinalizou com a possibilidade de realização de campanhas de caráter social utilizando grandes clubes.  

Coincidência ou não, pouco depois o São Paulo FC também entrou em campo com uma mensagem social e, no clássico do último domingo contra o Palmeiras, cada um de seus jogadores entrou em campo acompanhado por um cachorro da campanha Adote Um Amigo (#adoteumamigo), promovida por seus parceiros Petz e Pedigree. E não cabe aqui o discurso de que esta ou aquela ação é mais importante, mais nobre ou se foi paga ou não, já que as duas buscam fazer do mundo um lugar um pouco melhor.

Em tempos em que um jogador de futebol é capaz de deixar seu companheiro ser expulso em seu lugar sem se “entregar”, de pênaltis cavados que são comemorados sem o menor pudor por alguns dos jogadores mais importantes do mundo, e de corrupção envolvendo altos dirigentes do futebol, talvez esteja surgindo uma nova tendência e este esporte passe a ser usado não para mostrar que na competição vale de tudo para ganhar, e sim para dar visibilidade a ações que não se encerram em sua realização, mas que chamem o público para fazer algo que seja capaz de melhorar a vida das pessoas, já que o engajamento é fundamental para a afetividade das ações sociais.

Os exemplos estão aí! Muito já aconteceu, como a exposição da marca da AACD na camisa do próprio Corinthians, e muito mais está acontecendo não apenas no futebol, mas em outros esportes também. O que se espera é que cada vez mais os clubes usem sua força para divulgar ações deste tipo e, principalmente, que os fãs de esporte dêem a sua resposta para que elas continuem acontecendo.

    
  

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Futsal, um esporte que pensa tão grande quanto pode ser

A volta do craque Falcão à Seleção Brasileira de futsal aconteceu na última terça-feira (22), em Fortaleza, com uma vitória frente a Portugal para um público de 11.444 espectadores, além dos que assistiram ao vivo pelo SporTV. Normalmente tudo isso seria motivo de muita comemoração, mas desta vez não foi o suficiente.

Apesar do excelente número de torcedores, se comparado a jogos regulares de futsal, da volta do maior nome do futsal de todos os tempos, e da importância que uma transmissão ao vivo tem para que qualquer esporte dê retorno a seus patrocinadores, a grande expectativa dos organizadores, segundo suas próprias declarações antes da partida, era bater o recorde de público que aconteceu em 2014, quando outro amistoso, desta vez entre Brasil e Argentina, levou 56.578 espectadores ao Mané Garrincha, em Brasília.

A vocação do esporte da bola pesada para atrair público e oferecer bons espetáculos é indiscutível, assim como as características que o colocam entre os bons produtos para a TV. O jogo é rápido, exige muita habilidade dos jogadores e prende a atenção do início ao fim. Tem ainda a identificação do público com esta modalidade, que é uma das mais praticadas nas escolas e, sem sombra de dúvida, a mais praticada pelas ruas e quadras públicas por todo o país.

Sim, o futsal é grande, principalmente no Brasil, e tem potencial para levar os mais de 60.000 torcedores pretendidos a um estádio de Copa do Mundo. Mas aí entram alguns fatores que surpreendem no que diz respeito ao planejamento deste evento, e uma comparação bem simples pode ajudar a entender o público presente que, apesar de excelente, foi decepcionante (um paradoxo!!).  Na semana anterior, o Flamengo levou cerca de 67.000 torcedores ao Mané Garrincha (aquele mesmo, do recorde do futsal), numa quarta-feira à noite. O público foi excepcional, mas estamos falando de uma torcida que além de ser a maior do Brasil, é também uma das mais apaixonadas, e um clube com um poder de mobilização como poucos no mundo.

Agora, se pensarmos que o jogo de futsal aconteceu numa terça-feira, com início às 21:30h, temos de cara dois bons motivos para que as pessoas não compareçam à Arena Castelão, já que se trata de dia de semana e em um horário que já é amplamente criticado no futebol. Apesar dos dois supercraques que estavam em quadra, Falcão e Ricardinho, o fato de ser um jogo sem grande relevância para a Seleção tampouco ajuda a atrair público.

Outros fatores, principalmente ligados ao planejamento e à divulgação abaixo do necessário para alavancar os números, somam-se aos anteriores para que não se alcance o objetivo, mas talvez o principal tenha sido uma clara inversão de valores em toda essa história. Apesar, repito, do grande potencial do futsal para atrair público e mídia, a presença é uma consequência do que o evento oferece e, neste caso, foi tratada como objetivo. Ora, não é comum as pessoas irem a eventos esportivos para verem a torcida, e sim o espetáculo…

No fim, fica a certeza de que o futsal tem, sim, condições de lotar grandes arenas em todo o Brasil, e é muito bom que esteja disposto a se expor para alcançar novos patamares, mas é fundamental que os responsáveis pela realização do evento batam um bolão fora de quadra, assim como Falcão, Ricardinho e companhia fazem dentro das quatro linhas. É disso que o futsal precisa para que se torne tão grande quanto seus principais astros sabem que ele é.

Está aberta a temporada de patrocínios visando aos Jogos

A temporada de contratação de atletas para campanhas que remetem aos Jogos Rio 2016 está aberta e a todo vapor. Mais do que o momento de fazer um pé de meia para segurar a ressaca pós-Rio, esta será a maior chance que atletas brasileiros e o próprio esporte já tiveram para mostrar o seu valor e poder de comunicação com o público. Mas quem vai conseguir aproveitá-la?

Não é de hoje que as reclamações referentes aos investimentos no esporte fazem parte das discussões diárias não só de quem vive neste meio, mas também dos fãs que já estão familiarizados com o discurso de dirigentes e de seus atletas preferidos. Aliás, em um meio onde dirigentes e atletas poucas vezes falam a mesma língua, a necessidade de investimentos talvez seja um dos poucos pontos nos quais concordam.

É claro que nem tudo se resume ao volume de recursos investidos e, na minha opinião, este ainda pode ser um dos menores problemas, já que as entidades não demonstram muita habilidade para alocar os montantes de que dispõem, sejam eles abundantes ou escassos, e a discussão acaba invariavelmente indo para o lado da profissionalização da gestão esportiva em nosso país. Mas essa é uma outra história, e o que atletas olímpicos e paralímpicos devem fazer agora é dar resultados aos seus patrocinadores e lutar para que eles mantenham seus investimentos em esporte mesmo depois dos Jogos.

Com a seca momentaneamente afastada é hora de estabelecer relações com as empresas que pretendem aproveitar o momento de Olimpíadas e Paralimpíadas em casa, mas mais do que isso, é hora dos atletas e suas equipes entenderem onde exatamente cada um deles se encaixa, quais são suas características, seus atributos mais marcantes para que as parcerias iniciadas neste momento possam se manter depois que o boom de 2016 passar.

E não basta o discurso pronto de que o atleta é um produto e todo aquele blá blá blá bonito. É fundamental que ele tenha consciência de como pode contribuir para o sucesso das campanhas para as quais é contratado. Entender-se como “produto” pressupõe saber suas características e de que forma elas podem ser úteis a cada um de seus patrocinadores. Conhecer a empresa que o contrata e saber seus objetivos com a campanha também fazem toda a diferença na hora de sugerir ações e apresentar resultados.

Já passou a hora de cair o mito de que a principal contrapartida de um patrocínio esportivo é a exposição da marca na camisa de competição. Isso pode até funcionar com esportes de maior visibilidade e empresas que querem se ver na mídia, mas a verdade é que na maioria dos esportes olímpicos e paralímpicos esta exposição representa pouco diante das outras oportunidades que se apresentam. É importante ativar, mas também é importante que o atleta contribua para o crescimento do patrocínio esportivo.

E, o mais difícil, é necessário saber falar não para marcas e produtos que não tenham sinergia com o atleta. Hoje há um grande leque de possibilidades quando se fala em patrocínio. Ainda que o momento econômico não seja dos melhores, diferentes marcas, objetivos de campanha e budgets favorecem o atleta no sentido de associar sua imagem somente àquelas em que realmente acredite. Claro que nada disso cai do céu, e um bom trabalho de prospecção é fundamental.

A missão não é fácil, o trabalho exige bastante suor, mas a hora chegou e cabe ao atleta (leia-se sua equipe) mostrar ao mercado que ele pode ser uma excelente ferramenta de comunicação com o público e, assim, garantir seu lugar ao sol depois de 2016.

Canoagem internacional prova estrutura do Rio

A comunidade da canoagem e da paracanoagem internacional testaram no último fim de semana, de 4 a 6 de Setembro, a estrutura da Lagoa Rodrigo de Freitas, local dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, no Desafio Internacional de Canoagem Velocidade, que é um evento teste do Aquece Rio. E olha que se a intenção era testar, não faltaram desafios!

Os eventos que testam as estruturas dos Jogos Olímpicos a um ano de seu início já são tradicionais, e aqui no Brasil o de canoagem foi o décimo realizado visando às competições do ano que vem. Os atletas começaram a chegar no início da semana e desde então a raia foi posta à prova com os treinamentos diários dos 180 atletas de 30 países. E apesar do número reduzido de competidores em relação aos jogos, foi possível ter uma boa ideia do que vem pela frente.

Ao contrário de outros locais de competições, a raia olímpica não precisa de uma grande estrutura permanente para depois dos Jogos, e isso significa que fora da água teremos um número maior de estruturas temporárias, o que é uma decisão acertada tanto para que os custos não sejam maiores que o necessário quanto para que o local não se torne um elefante branco depois de 2016.

A área de imprensa e a efetividade da zona mista foram colocadas à prova, principalmente quando quatro atletas brasileiros da canoa, incluindo os campeões mundiais Isaquias Queiroz e Erlon Silva, decidiram boicotar o evento por discordarem de assuntos referentes a repasses de verbas de patrocínio da CBCa. Como a situação aconteceu de forma inesperada e exatamente na zona mista, foi necessário bastante trabalho da assessoria para manter a ordem, e consequentemente houve um aumento de demanda de toda a área, que então recebeu um número ainda maior de jornalistas.

Já na água, torres de arbitragem novas e partidores recém-chegados funcionaram sem problemas, assim como a cronometrarem, deixando como ponto negativo a grande quantidade de algas ao longo do percurso, o que dificultou a vida dos canoístas, que em alguns casos tiveram a velocidade reduzida durante suas provas por conta de algas grudadas no leme das embarcações ou no próprio remo.

Obviamente esta situação não passou despercebida pela organização, e mesmo antes de ser reportada pelos atletas já havia um trabalho intenso para remoção das ervas marinhas, que este ano tiveram proliferação atípica por conta do sol intenso durante todo o inverno.

E se por um lado é verdade que esta situação é de máxima importância e precisa ser corrigida para 2016, já que pode afetar diretamente os resultados das competições, também é verdade que o evento teste tem como objetivo detectar exatamente este tipo de problema, que só aparece em um ambiente real de competição, para que não se repita nos Jogos.

Também vale ressaltar que no sentido de buscar o máximo de similaridade com o que acontecerá no ano que vem, o Aquece Rio foi bastante honesto, já que trouxe alguns dos principais canoístas do mundo, o que aumenta o grau de exigência, e a organização se posicionou de maneira muito aberta a sugestões e críticas.

Analisando de fora e considerando o que foi e ainda deve ser realizado durante os próximos meses para os Jogos, a perspectiva é que o Rio 2016 entregue um evento que tem tudo para deixar ótimas lembranças aos atletas e ao público já que, além da competição e da vista mais impressionante que se pode apreciar em qualquer raia de canoagem ao redor do mundo, a organização está no caminho certo para entregar um evento que promete ser de primeira qualidade.

Paracanoagem e o destino de profissionais nas mãos de voluntários

A crescente profissionalização dos atletas é uma importante evolução que vem ocorrendo no paradesporto. Por meio de patrocínios ou bolsas, eles têm garantido os recursos necessários para que se dediquem com exclusividade à atividade esportiva. Na paracanoagem não é diferente, mas tem causado desconforto o fato de a classificação funcional, que é a principal peça da Federação Internacional de Canoagem para garantir uma competição justa, ser realizada por profissionais que realizam esta tarefa voluntariamente.

É inegável a importância do voluntário para o sucesso dos mais variados eventos esportivos. Esta figura que se enche de vontade, dedicação, e ainda abre mão de seu tempo livre para trabalhar sem remuneração em eventos que vão desde pequenas ações que envolvem a comunidade local até megaeventos como Olimpíadas, Paralimpíadas, Campeonatos Mundiais, Copas do Mundo e muitos outros é, sem sombra de dúvida, um dos principais motores que elevam a qualidade das competições, além de torná-las financeiramente viáveis.

Mas quando se trata especificamente de avaliar a funcionalidade do corpo de atletas da paracanoagem, vem se mostrando cada vez mais importante o investimento em profissionais. Eles poderiam ser, inclusive, alguns dos voluntários que exercem atualmente esta função, já que não há motivos para acreditar que o problema seja generalizado, apesar de grave. O importante é que tenham com o esporte e com a competição uma relação equivalente à que os atletas têm. Para fazer uma comparação muito simples, basta imaginarmos a quantidade de erros que ocorrem nas arbitragens do futebol simplesmente porque esta não é a atividade principal dos árbitros, o que não permite uma preparação adequada à demanda daquele esporte. E vale ressaltar que eles recebem pelo seu trabalho, não são voluntários.

No caso da classificação da paracanoagem, até a aplicação das regras que os próprios classificadores criaram parece muito mais difícil do que deveria ser, inclusive em questões muito básicas. O caso do Review (revisão) é emblemático. Na primeira figura abaixo, nas disposições gerais, o texto em inglês diz logo no primeiro parágrafo que se depois de realizar todos os testes a junta de classificadores entender que a avaliação do atleta não foi conclusiva, levando a uma situação de borderline (limítrofe entre duas classes), o canoísta deve ser classificado na categoria de maior funcionalidade entre as duas sob o status de Review.

Fica claro que na categoria com menor funcionalidade de todas, no caso do caiaque o KL1 e do Va’a o VL1, não pode haver atleta na condição de Review, já que como a regra diz, um atleta nesta condição deve ser alocado na categoria de maior funcionalidade. Pois a segunda imagem abaixo mostra apenas um caso de 11 em que os atletas em situação de dúvida foram colocados na classe de menor funcionalidade na última lista divulgada. Apesar de a lista estar publicada no site da federação, a identidade do atleta foi preservada porque a intenção não é expô-lo, mas ilustrar a situação. Esta lista foi atualizada para o Mundial de Paracanoagem que aconteceu em Milão, há duas semanas, e contraria uma regra das mais simples de ser aplicada, de tão objetiva que é. E o pior, neste mundial os seis primeiros colocados de cada categoria garantiram vaga para seus países no Rio 2016.  

Conversando com atletas e membros de equipes na Itália ficou claro o descontentamento, principalmente por parte dos atletas, por terem sua classificação definida por pessoas que não estão ali profissionalmente, já que eles, atletas e demais profissionais, vivem deste esporte e podem ter seu destino selado por pessoas que não têm o mesmo envolvimento que eles. Refletindo depois sobre essas conversas e os argumentos de cada um, o que me parece é que o problema não é exatamente a condição de voluntário, e sim a aparente falta de consequência para os classificadores quando não desempenham seu papel corretamente. Uma classificação funcional mal feita prejudica todos os atletas daquela categoria, mas não se vê qualquer ação em relação ao classificador. Falta uma resposta dos dirigentes aos atletas e sobra a sensação de que tudo fica por isso mesmo. 

Não cabe aqui dizer que faltou esforço da equipe de classificação funcional ao longo do último ano já que, segundo eles, um grande trabalho científico foi realizado para sanar os problemas, inclusive com uma pesquisadora remunerada para este fim. Mas os resultados das classificações funcionais realizadas em Milão não são menos alarmantes que os de Moscou, no ano anterior. Os erros recorrentes não deixam outra opção senão repensar estes estudos, já que na prática pouco ou quase nada mudou em relação à precisão da classificação funcional. Talvez no papel tudo faça sentido, mas a competição acontece na raia, e o que se vê ali não demonstra grande avanço.

O fato é que a comunidade da paracanoagem está no Rio de Janeiro para o Evento Teste do Rio 2016 que acontece ao longo deste fim de semana, de 4 a 6 de Setembro. Dirigentes, comissões técnicas e atletas avaliarão as condições da raia da Lagoa Rodrigo de Freitas para os Jogos Paralímpicos do ano que vem. Os classificadores funcionais também já estão por aqui de olho na nossa estrutura e, como estão reunidos, talvez, mais do que avaliar o trabalho dos outros, esta seja uma grande oportunidade para resolver os problemas mais graves deste esporte, que vêm muito antes da estrutura da raia e estão em suas mãos.