Canoagem Brasileira colhe frutos de parcerias que vão muito além de logo na camisa

Enquanto questões importantes amontoam-se sem solução nas mesas dos dirigentes da Federação Internacional às vésperas dos Jogos Rio 2016, a Confederação Brasileira de Canoagem mostra que vem fazendo a lição de casa e aproveitou o que cada um de seus parceiros têm de melhor. O resultado é uma visível evolução estrutural no Campeonato Brasileiro, que acontece em Curitiba. 

Quem veio à capital paranaense nas últimas duas edições do principal campeonato nacional de canoagem e paracanoagem pode perceber mudanças na estrutura do evento que saltam aos olhos. Enquanto na edição passada o desconforto de atletas e espectadores foi atribuído à chuva, que não deu trégua e transformou o Parque Náutico do Iguaçu em um verdadeiro lamaçal, na competição deste ano, que começou no dia 27 e vai até 30 de agosto, toda a estrutura está preparada para suportar chuva e garantir a locomoção à pé ou em cadeira de rodas a qualquer área do evento. Também chamam a atenção a sinalização e o pódio. 

Na parte de tecnologia, um telão de LED transmite as provas e resultados em tempo real, mas o pulo do gato está um pouco mais escondido e promete refletir diretamente nos resultados dos canoístas brasileiros, se não ainda neste campeonato, já nos Jogos de 2016. São pesquisas avançadas e avaliações de performance que vêm sendo realizadas desde abril deste ano.

E talvez a maior sacada de todas seja o fato de que essas novidades estão diretamente ligadas à ação de dois patrocinadores da CBCa que, cada um à sua maneira, colocaram sua expertise à disposição da canoagem para a evolução deste esporte no Brasil. O BNDES, na condição de patrocinador principal da entidade, arregaçou as mangas e passou a contribuir diretamente para que a estrutura e a organização do Campeonato Brasileiro estejam dentro do mais alto padrão, como se espera de qualquer evento patrocinado pelo banco.

Já a GE, que a cada ciclo tradicionalmente patrocina um esporte que esteja nos programas olímpico e paralímpico, participa diretamente das pesquisas e avaliações de atletas de todas as modalidades da canoagem com o objetivo de deixar, para usar a palavra que se desgasta mas não sai de moda, um legado para o esporte brasileiro.

Parcerias como essas, em que o envolvimento das marcas vai além de sua exposição, são um caminho não apenas para o desenvolvimento de áreas onde, de um modo geral, as entidades esportivas mostram certa carência, mas também para que os patrocinadores participem verdadeiramente de todo o processo esportivo e possam não somente deixar sua contribuição, mas também adquirir uma rica experiência.

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Futebol Italiano e o modelo que podemos seguir

Se trabalhar com esporte, por um lado, proporciona a oportunidade de conhecer os mais diversos eventos esportivos, por outro, o fato de “ser um trabalho como qualquer outro”, acaba tirando um pouco da fantasia, e curtir o evento com os olhos de fã é naturalmente mais difícil. Mas no último fim de semana estive em um daqueles que nos fazem voltar à infância: o Calcio!

Depois de passar dez dias focado no Campeonato Mundial de Canoagem, que aconteceu em Milão, tive o fim de semana livre, então aproveitei a primeira rodada do Campeonato Italiano, a Serie A TIM, para fazer uma das coisas que mais gosto quando estou viajando, e fui ao Estádio San Siro, ou Giusepe Meazza, assistir a Inter de Milão x Atalanta. Mesmo nunca tendo estado lá antes, o jogo foi uma viagem no tempo, quando, entre infância e adolescência, assistia aos jogos nas manhãs de domingo no Show do Esporte da Band, com narração de Silvio Luiz.

A chegada ao estádio prometia ser complicada, pois eu havia acabado de chegar de Florença e tive que passar no hotel antes de ir ao jogo. Como era do outro lado da cidade, já entrei no táxi conformado com a ideia de perder uns bons minutos do primeiro tempo. Mas era domingo, o trânsito estava livre, e chegando nas imediações do estádio o motorista não teve qualquer problema para se aproximar o máximo possível.

Quando ainda estava do lado de fora começou o hino, e antes que o Silvio Luiz terminasse o célebre “acerte o seu aí que eu arredondo o meu aqui”, já estava sentado vendo a partida. Claro que a Itália é diferente da maioria dos países europeus e, como o estádio não estava lotado, procurar a cadeira exata se mostrou desnecessário, o que facilitou um pouco o trabalho. Fiquei em um setor um pouco mais alto que o do ingresso, mas isso não foi problema.

Já acomodado, foi hora de dar uma boa olhada ao redor. Foi fácil identificar o setor dos torcedores mais fanáticos, que não param um segundo de cantar e agitar enormes bandeiras. Bem do lado oposto, na parte mais alta, e olha que altura do estádio foi uma das coisas que mais me impressionaram, estava a torcida do Atalanta, barulhenta e em bom número. No campo, além da bola que estava rolando, era impossível que as duas fileiras de placas de publicidade sincronizadas e interagindo entre elas passassem em branco.

E duas das publicidades me chamaram mais atenção por se tratar de dois serviços que normalmente funcionam muito mal no Brasil, mas que durante a minha estada na Itália funcionaram perfeitamente. A primeira foi da TIM, de quem eu adquiri um serviço de internet 4G que funcionou muito melhor que o da minha casa. A segunda foi do Frecciarossa, o trem da Trenitalia que me permitiu sair de Florença por volta das 18:00, viajar mais de 300 km até Milão, passar no hotel, e ainda chegar a tempo no jogo. A sensação de que a publicidade não quer me empurrar serviços precários só pra tomar o meu dinheiro é muito boa (e diferente!).

Dentro de campo, o zero a zero imperava soberano com a Inter atacando e o Atalanta defendendo com oito ou nove jogadores, e só um para puxar o contra-ataque. Ao fim da primeira etapa chegou a hora de descobrir o que os italianos comem e bebem no intervalo. Obviamente a formação de fila tanto para comprar ficha quanto para retirar os produtos não é o forte dos locais, que se amontoam e formam a tal “fila italiana”. Mas o bom cachorro quente com Heineken valeram a pena.

No segundo tempo o jogo foi de ataque contra defesa, enquanto o Atalanta teve apenas duas chances no contra-ataque. E o que parecia ser um zero a zero digno de pé frio internacional virou uma grande alegria da torcida de Milão, “ela foi lá, balançou o capim no fundo do gol do Atalanta quando eram jogados redondos 49 minutos do segundo tempo”. Eu, no mais perfeito estilo turista, gravei o gol no meu celular, como você pode ver mais abaixo.

Na hora de ir embora, mais sanduíche com cerveja na porta do estádio e compras nas barraquinhas que, assim como na maioria dos estádios em que eu estive na Europa, vendem produtos oficiais que vão desde flâmulas a camisas personalizadas, não as do fornecedor de material esportivo, neste caso a Nike, mas as do clube.

Uma experiência das melhores que eu poderia ter em um jogo de futebol, que para terminar ainda tem a estação de metrô San Siro Stadio bem ao lado, sem que precise atravessar a rua. É claro que antes de pegar o metrô eu me ensopei procurando um táxi que não existia mais àquela hora na rua, mas isso faz parte…

No fim, o balanço não poderia ser mais positivo, já que tudo funcionou muito bem e, independente do jogo, que não foi ruim mas poderia ter sido, já que é uma variável incontrolável, todo o resto, aquilo que depende da estrutura e da administração, funcionou sem qualquer dificuldade. Acho até que o modelo italiano pode servir como um exemplo bastante factível para que usemos melhor as novas arenas que temos hoje no Brasil e que a satisfação do público não dependa apenas do que acontece dentro de campo.

  

Fernando Fernandes: um ano com saldo positivo

Após conquistar a medalha de bronze em mais um campeonato marcado por erros grosseiros de classificação funcional, o tetracampeão Fernando Fernandes termina sua participação no Mundial de Milão com uma avaliação positiva do ano em que também sagrou-se campeão da Copa do Mundo da modalidade.

Mesmo dividindo o pódio com dois atletas classificados indevidamente na categoria KL1 (que em breve serão tema de post neste blog explicando a situação de cada um), Fernando em nenhum momento se deixou abater e ainda demonstrou sentimento de missão cumprida. “O que eu tinha para dar, eu dei aqui dentro da água. Usei as armas que eu tinha. Antes até dos objetivos pessoais, este ano era mais importante ficar entre os seis primeiros e garantir uma vaga para o Brasil no Rio 2016. Isso aconteceu e ainda veio com uma medalha, o que é sempre uma honra. O resto tem que ser resolvido do lado de fora”. 

O multicampeão também falou sobre a temporada, que encerra aqui sua fase internacional e foi coroada com um título inédito em maio. “O saldo deste ano foi muito positivo nos principais campeonatos. Eu levei o ouro na Copa do Mundo, uma competição que ainda não havia participado, e agora o bronze no Mundial. Acho que não dá para reclamar de 2015!” 

As próximas competições acontecem já nas semanas seguintes, com o Campeonato Brasileiro, em Curitiba, nos dias 29 e 30 de agosto, e o evento teste do Rio 2016, nos dias 5 e 6 de setembro.  

Agora Fernando aproveita o fim de semana de folga em Milão para acompanhar a participação de sua namorada, a austríaca Viktoria Schwarz, no Campeonato Mundial e fazer o que mais ama: remar.  

Fernando Fernandes está na final do Mundial de Paracanoagem

O canoísta brasileiro tetracampeão mundial Fernando Fernandes venceu sua eliminatória na manhã desta quarta-feira, 19 de Agosto, e garantiu vaga na final do Campeonato Mundial de Paracanoagem, que acontece em Milão, na Itália.

Mesmo ainda tendo que lidar com problemas de classificação funcional em sua classe, o KL1 200m, e encarando atletas que deveriam estar em classes diferentes da sua, o brasileiro não deixou barato e chegou mais de dois segundos à frente do segundo colocado de sua bateria, garantindo assim vaga direto na final, sem necessidade de disputar as semifinais.

O maior vencedor brasileiro na história da paracanoagem falou sobre a expectativa. “Desde o ano passado a paracanoagem está infestada de atletas que estão classificados na categoria errada por um motivo ou por outro, mas eu estou super concentrado, com foco total no que vai acontecer dentro da água. O que eu quero é sentar o remo na água e dar o meu melhor, e tenho muita confiança de que assim o resultado virá.”

A prova final, que pode trazer o pentacampeonato para Fernando, acontece no complexo Idroscalo Milan já na manhã desta quinta-feira (20), às 09:40h no horário de Brasília.

Paracanoagem: um esporte em coma moral profundo

Passado um ano da vergonha alheia proporcionada pela classificação funcional da paracanoagem no Mundial de Moscou, e finalmente livre da ameaça de não entrar no programa dos Jogos Rio 2016, a paracanoagem finalmente mostrou a sua cara: um esporte rico em talentos que sofre de uma profunda crise moral fora da água.

A bandeira amarela indicando graves problemas de classificação funcional, que barraram a entrada do Va’a no Programa Paralímpico e ameaçaram seriamente a do caiaque, parecia dar resultados, ainda que a nova metodologia de classificação tenha sido costurada às pressas apenas para satisfazer o Comitê Paralímpico Internacional, que cobrava uma resposta imediata para salvar o que fosse possível da paracanoagem nos Jogos Paralímpicos. Por um instante pareceu haver alguma vontade e até um pouco de seriedade no trabalho da Federação Internacional de Canoagem para resolver uma situação que vinha desgastando prematuramente um esporte que cresce em ritmo acelerado.  

Mas os primeiros dias de trabalho no Campeonato Mundial que está acontecendo em Milão e a conclusão da classificação funcional provam que o otimismo foi exagerado, fruto da ingenuidade insistente de quem ainda acredita no esporte. O fato é que em meio à má fé de alguns atletas e à incompetência de classificadores funcionais que atuam nesta competição, talvez ainda haja espaço para se somar outros interesses que sirvam a alguns poucos beneficiários ocultos. Sim, a paracanoagem vive o pior dos mundos fora da água, e o resultado continuará sendo sentido dentro da raia enquanto isso não seja resolvido.

Atletas que fingem ter condição física mais limitada do que de fato têm seguem aproveitando a permissividade de classificadores que não fazem questão de enxergar um palmo à frente do nariz, mesmo quando dispõem de recursos eletrônicos, como fotos e vídeos, que poderiam facilmente desfazer erros grosseiros que não têm mais motivo para acontecer. Estes classificadores ignoram sem a menor cerimônia uma violação tipificada nas regras do IPC como misrepresentation. E ainda que acreditem que imagens de vídeos não oficiais não sirvam como prova desta violação, ignoram outra regra do IPC, que é muito simples: em caso de dúvida, o atleta deve ser enquadrado na classe acima, nunca abaixo.  

E toda essa situação toma contornos ainda mais críticos pelo fato de todos os problemas relacionados à classificação funcional serem resolvidos exatamente pelas mesmas pessoas que os criam e os multiplicam com uma rapidez assustadora, ou seja, as chances de que alguma coisa mude de fato são mínimas. Informações oficiais desencontradas e duvidosas fazem parte do pacote.  

Para dar um exemplo bastante simples, claro e real do quanto as coisas andam estranhas por aqui, o atleta Igor Korobeynikov, da Rússia, está classificado na classe KL2 desde o Mundial de Moscou. Ele é um dos que foram reclassificados após a prova da categoria A (atual KL1) por mostrar na final daquele campeonato movimento de tronco (e muito!), o que não é permitido nesta classe. Este atleta está desde então na lista da Paracanoagem da ICF como KL2, como mostra a primeira imagem mais abaixo. Misteriosamente, desde ontem (17/08) ele aparece no Start List da prova número 6, que é a eliminatória 2 da categoria KL1 200m (imagem 2). E ele não poderia ter sido reconduzido ao KL1 porque sua classificação funcional ainda nem foi realizada. Aliás, está marcada para esta terça-feira (18/08), às 15:15 (10:15 hora de Brasília), como também pode ser visto na terceira imagem abaixo. Curiosamente, no mesmo horário em que este post está sendo publicado. Erro ou “premonição” dos classificadores? Qualquer um dos casos é lamentável.  

O aparente benefício aos atletas da Gram-Bretanha, que demonstram a olho nu mobilidade superior à de seus adversários das mesmas classes, também tem despertado dúvidas cada vez maiores nos bastidores aqui em Milão e promete, em breve, transformar-se em questionamento de algumas delegações que se sentem prejudicadas. 

A pouco mais de um ano da estréia da paracanoagem nos Jogos Rio 2016, a situação deste esporte é muito pior do que se podia imaginar há um ano, em Moscou, quando a incompetência de seus responsáveis parecia chegar ao auge. Na verdade, aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história que está longe de chegar ao fim e pode colocar a perder muito do que foi conquistado nos últimos anos.  

Dentro da água, que no fim das contas é o que deveria ser o centro das atenções neste momento, as provas eliminatórias começam nesta quarta-feira pela manhã, no horário italiano, e na quinta já teremos as primeiras finais. O que resta agora é torcer pela boa performance dos atletas que estão aqui para competir honestamente, sabendo que independente do que aconteça haverá muitos prejudicados e, mais uma vez, o esporte será o maior deles.  

  
  
  

Trapaça ou incompetência no “Dia D” da Paracanoagem?

Qualquer mercado novo e em pleno desenvolvimento é terreno fértil para a ação de pessoas inescrupulosas e uma grande armadilha para quem não tem competência para acompanhar este crescimento. Pois bem, esta segunda-feira pode ser um divisor de águas na paracanoagem. Hoje é o dia em que este esporte conhecerá sua atual situação: espaço para os grandes ou palco dos medíocres.

Eu já citei algumas vezes de forma breve aqui no blog o problema de classificação funcional que permeia o paradesporto. Para resumir e evitar repetições, a classificação funcional é a avaliação que indica o grau de funcionalidade do corpo do atleta, ou seja, quanto efetivamente é aproveitado naquele atividade específica. Este trabalho de extrema importância deve ser realizado por pessoas capacitadas e segue uma metodologia própria de cada modalidade, já que o que se usa em uma não necessariamente se usa em outra, pelo menos na mesma intensidade.  O fato é que, desde que a Paracanoagem se tornou um esporte paralímpico, muitos atletas passaram a buscar ali o seu espaço. Mas, diferentemente do esporte convencional, eles primeiro precisam saber qual é a sua categoria, e aí começam os problemas, pois há algumas situações em que o trabalho de muita gente séria pode ir por água abaixo.  Eu vou me limitar aqui a apenas três. 

A primeira é a ação de atletas mal intencionados, que durante a avaliação funcional simplesmente “escondem” a sua verdadeira mobilidade para enganar os classificadores e participar de uma categoria abaixo da sua, conseguindo assim uma enorme vantagem sobre aqueles que têm funcionalidade condizente com a categoria. Sim, é o inverso da vida real. As pessoas normalmente não querem ter deficiência, mas estes fingem ter uma deficiência mais severa do que a de fato têm para tirar proveito.  

A segunda situação é quando o atleta faz todos os testes da classificação funcional com honestidade, mas por incapacidade do classificador é posicionado em uma categoria abaixo ou acima da sua. Este caso, olhando de fora, talvez seja até pior que o primeiro, pois ele contribui para que muitos erros aconteçam, para cima e para baixo.  

Por fim, é claro, tem o pior dos mundos, quando os classificadores não são bons e há atletas desonestos. Apesar de todos os casos serem preocupantes, este contamina o paradesporto de uma forma quase que irreversível e demanda mudanças drásticas na condução do esporte. 

Como consequências de alguma dessas situações, há um ano eu vivi o momento mais frustrante da minha vida no esporte. Vi, em Moscou, meu atleta Fernando Fernandes, tetracampeão mundial de Paracanoagem, um ícone desse esporte não apenas no Brasil mas também em muitos outros países onde se pratica a canoagem velocidade, uma verdadeira inspiração para inúmeros novos praticantes, ser praticamente “assaltado” na final do Campeonato Mundial, ficando atrás de indivíduos que claramente deveriam estar em outra categoria. Não foi por falta de aviso. A equipe de classificadores funcionais foi insistentemente alertada antes do início da competição, mas nada foi feito.  

A situação foi tão vergonhosa que a maioria dos atletas foi reclassificada depois da final, ou seja, conduzidos a partir daquele momento à categoria em que realmente deveriam competir. A Federação Internacional de Canoagem (ICF), por sua vez, ao contrário do que indicaria a lógica, não desclassificou os competidores irregulares naquele campeonato, ou seja, o resultado nem ao menos foi alterado e todos que competiram honestamente foram prejudicados sem o menor pudor ou qualquer explicação. 

Um daqueles atletas, porém, por mais que tenha mostrado movimentos que não condizem com a categoria até então denominada “A” (do inglês Arms = Braços), não foi reclassificado, mesmo com o protesto formal realizado pela Confederação Brasileira de Canoagem e as imagens oficiais da própria ICF, que mostram claramente suas pernas se mexendo durante a prova.  

Uma vergonha que pode se repetir e, pior, agora com outros atletas que migraram da canoa para o caiaque porque ela não foi incluída no programa Paralímpico e ficou fora dos Jogos Rio 2016. E o motivo da não inclusão da canoa é nada menos que reservas do Comitê Paralímpico Internacional em relação à validação do sistema de Classificação Funcional proposto e a falta de tempo para que sejam realizadas a pesquisa e a implementação necessárias.

E assim, um ano depois do verdadeiro desastre que aconteceu no campeonato de Moscou, chegou o “Dia D” da Paracanoagem. Nesta segunda, alguns dos erros mais crassos deste esporte podem ser corrigidos. Atletas que ocupam classes erradas de forma mais gritante podem ser conduzidos à sua verdadeira classe funcional. Os erros existem e estão clara e amplamente documentados. É hora de ver em qual dos três casos enquadra-se a Paracanoagem. Má fé de atletas, incompetência de classificadores ou uma mistura que pode implodir o trabalho atletas honestos, que lutam há anos peloo crescimento deste esporte.  

Oremos a Nossa Senhora do Paradesporto! Que ela ilumine as ações desses profissionais, e que a Paracanoagem seja um espaço para que brilhem os bons, dentro e fora da água, pois de mediocridade o mundo já está cheio.  

Verônica Hipólito e o nascimento de uma campeã

A velocista Verônica Hipólito conclui sua participação no ParaPan de Toronto nesta sexta (14), às 19:44 no horário de Brasília, mas independente do resultado da final dos 400m rasos e até mesmo da possibilidade de conquistar mais um ouro, algumas características já a credenciam a ser um dos principais nomes do paradesporto brasileiro e uma feliz realidade para os Jogos Paralímpicos Rio 2016.

É verdade que em 2013, ao se sagrar campeã mundial dos 200m rasos, ela conquistou um resultado mais expressivo que as até então três medalhas dos Jogos ParaPan-Americanos Toronto 2015, duas de ouro, nos 100m e 200m, e uma prata no Salto em Distância, mas sem dúvida ela está conquistando na competição continental algo muito mais especial que todo o metal que trará em sua bagagem, que é o reconhecimento, o respeito e o carinho do público que está acompanhando o paradesporto.  

O mundo do esporte já está de olho nessa joia há algum tempo, e ela vem aproveitando a atenção que recebe para fazer o seu caminho. É atleta do Sesi, patrocinada pela Caixa, Nike e Petrobras. Essas relações, mais do que comerciais, demonstram a confiança que algumas das marcas com maior tradição no patrocínio esportivo do Brasil depositam em Verônica. E o mais importante é que todo esse apoio não veio por conta da “parte triste” da história da atleta, mas pelo trabalho que ela realiza seriamente todos os dias, pelos resultados, e por um carisma que exala de sua simplicidade.  

Verônica já derrotou um tumor, um AVC, e está pronta para qualquer batalha que tenha que encarar, mas seu foco é sempre na tal agenda positiva. As dificuldades, por maiores que sejam e tenham sido, jamais estão em condição de protagonismo em sua vida. São tratadas com a devida atenção, mas são apenas mais obstáculos que devem ser superados para que ela chegue aos seus objetivos.  

Essa menina pequena no tamanho e tímida no jeito de falar não foi feita para sofrer ou se vitimizar diante de qualquer situação, por mais grave que seja. Ela foi feita para brilhar dentro e fora das pistas. É doce, inteligente, forte, intensa, agiganta-se nas pistas e nunca está satisfeita. Quer sempre mais! Se pensasse apenas como profissional, diria que é um excelente produto. Mas a Verônica é diferente, ela quebra qualquer análise fria. É aquele tipo de atleta que veio para inspirar as pessoas e deixar sua marca no esporte.  

Logo mais ela entrará novamente na pista. O resultado pode ser ou não um lugar no pódio, uma cor ou outra na medalha. Tudo é imprevisível no esporte, mas uma coisa é certeza: mais uma vez Verônica vai dar o seu melhor.