Paradesporto tão competitivo quando esporte convencional. Acostume-se a isso!

 Nos últimos anos, público, clubes e patrocinadores passaram a prestar mais atenção ao paradesporto. Isso aconteceu, principalmente, depois da campanha de marketing realizada para Londres 2012, que posicionou seus praticantes como super-humanos. Com a notoriedade, porém, faz-se necessário um posicionamento mais objetivo do próprio paradesporto, esclarecendo definitivamente o que é alto rendimento, o que é inclusão social, e o que é qualidade de vida.

De acordo com o Relatório Mundial sobre a Deficiência, de 2011, há mais de 1 bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência em todo o mundo, sendo que 200 milhões convivem com o que o relatório chama de “dificuldades funcionais consideráveis”. Só por aí já é possível se ter uma noção do universo considerado quando falamos de paradesporto. E, ainda que nem todas as pessoas convivam diretamente com a deficiência, esta condição é muito mais comum do que a maioria pode imaginar. 

Se isolarmos o esporte dentro desse universo e o estudarmos com um pouco mais de profundidade, a conclusão é óbvia, mas talvez ainda não esteja clara. O paradesporto pode ter caráter competitivo, social ou de qualidade de vida, assim como o esporte “convencional”. A grande confusão acontece na distinção entre o alto rendimento, ou seja, a sua forma competitiva, e o que é praticado por qualidade de vida e inclusão social.

Ao falarmos de paradesporto “não competitivo”, o que realmente importa são os benefícios que a sua prática pode trazer para o indivíduo e para a sociedade, melhorando a saúde e qualidade de vida. Já no alto rendimento o buraco é mais embaixo. Temos uma situação exatamente igual à do esporte competitivo convencional. Ele não é inclusivo, apenas os melhores obterão êxito e, queira ou não, isso depende da condição física do atleta. Comparando com o esporte convencional, é muito difícil imaginar um homem de 1,70m de altura jogando basquete entre os principais astros da NBA.

Um fator que antecede a competição, porém, é determinante para o sucesso do esporte praticado por pessoas com deficiência. Trata-se da classificação funcional. Como eu já comentei aqui mesmo no blog, ela é responsável por agrupar atletas em categorias, visando a manter o equilíbrio na funcionalidade do corpo dos competidores, para que todos tenham condições semelhantes e a disputa seja o mais justa possível. É como a divisão por peso em esportes de luta, onde um atleta de 60kg jamais lutará contra um de 100kg, e é exatamente neste ponto que mora o grande desafio, pois algumas situações podem jogar por terra o trabalho de quem se esforça para competir honestamente.

A primeira é a má fé de atletas, treinadores e federações, que acontece quando o competidor deliberadamente finge ter uma deficiência maior do que de fato tem com o objetivo de competir em uma categoria abaixo da sua. Isso é popularmente conhecido como “doping funcional” e acontece com muita frequência em diversos países, inclusive no Brasil. Eles tentam ao máximo esconder sua verdadeira condição física para aproveitar a vantagem de ter o corpo com funcionalidade superior à de seus adversários e assim conquistar, de forma irregular, resultados que não obteriam em sua verdadeira categoria.

A segunda acontece por falha daqueles que deveriam zelar pela integridade do paradesporto e não o fazem por incompetência ou conivência: os classificadores funcionais. Neste caso, eles simplesmente não conseguem avaliar adequadamente os atletas e acabam os colocando em categorias incorretas ou, em casos ainda piores, para que não se indisponham com federações politicamente influentes naquele esporte, escondem-se atrás de argumentos burocráticos para não reclassificar atletas mesmo quando confrontados por evidências como vídeos e fotos que comprovem o erro.

No final, o que fica muito claro é que a competitividade no paradesporto em nada se difere da que vemos diariamente no esporte convencional. Nele também há pessoas dispostas a tudo para alcançar o sucesso, ainda que de forma totalmente avessa aos princípios olímpicos (neste caso, paralímpicos). Para resolver esta questão é necessário que haja muita informação e treinamento a fim de evitar ações inescrupulosas, mas também punições exemplares aos transgressores, sejam eles atletas, treinadores ou entidades esportivas.

Que venham os superprofissionais para que os super-humanos possam mostrar o seu valor! 

Veja aqui o vídeo de Londres 2012 “Meet the Superhumans”

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Mais uma derrota Canarinho e outra oportunidade para o esporte

Mais uma vez a Seleção Brasileira de Futebol decepcionou, e agora caiu fora da Copa América nas quartas de final diante do Paraguai e de um público, formado em sua maioria por chilenos, que “homenageou” a Canarinho com gritos de “olé” diante de um desafio que, em tempos mais gloriosos e não tão distantes, não meteria medo nem no mais pessimista dos torcedores brasileiros. E agora, que tal pensarmos nos Jogos Rio 2016?

A paixão do brasileiro por futebol é incontestável, e se justifica por toda a tradição que temos, principalmente com as cinco conquistas da Copa do Mundo. Mas ao mesmo tempo está cada vez mais claro que estamos muito longe de conquistar qualquer título internacional importante, não só pela aparente entressafra, pouca experiência dos nossos principais jogadores e da qualidade discutível dos nossos treinadores, mas principalmente porque, antes de iniciar um trabalho sério de formação, o Brasil parece esperar ansiosamente pelo surgimento de novos Ronaldos, Rivaldos, Zicos, quiçá um Pelé, sem que para isso precise mudar seus processos já bastante ultrapassados.

Enquanto essa situação aparece como uma ameaça para o esporte mais popular do país, o momento não poderia ser mais oportuno para o esporte olímpico brasileiro. Claro que o futebol está no programa olímpico, mas é comum que esta expressão o exclua, e aqui esse é o caso. O fato é que já se passaram as principais competições internacionais pelos gramados do mundo, e os Jogos Rio 2016 estão demorando muito para decolar por aqui. E mesmo que isso não seja uma surpresa, o que começa a incomodar é a falta de uma atitude pró-ativa dos dirigentes esportivos brasileiros.

A movimentação já começou e as empresas, tanto privadas quanto estatais, estão com seu planejamento a pleno vapor para as Olimpíadas e Paralimpíadas. Os tradicionais times de atletas estão se formando, a movimentação está acontecendo, inclusive com algumas renovações de patrocínio se adiantando para federações e confederações, mas tudo isso vem muito mais da vontade que as empresas têm de aproveitar o momento olímpico do que de ações efetivas das entidades esportivas para incrementar suas fontes de receita.

Obviamente há exceções, como as confederações de rúgbi e handebol, que vêm fazendo um trabalho intenso de exposição e, principalmente, experimentações ou degustações de suas atividades, enquanto a maior parte segue esperando pacientemente por uma estatal que a adote e ajude a resolver as dificuldades imediatas.

Faltam ações específicas que ajudem o público a conhecer e a se interessar por outros esportes, que tirem um pouco da atenção do futebol e mostrem o quanto eles são interessantes. Em alguns casos é preciso adaptar o esporte ao veículo, como foi o caso do desafio de handebol entre Brasil e Noruega, que aconteceu em junho e foi transmitido ao vivo para todo o país pelo Esporte Espetacular, principal programa esportivo semanal do Brasil.

Antes até de se atentarem à grande oportunidade que este esporte teve de mostrar o quanto é atraente e de dar retorno aos seus patrocinadores, o que mais-que-perfeito ouviu foram críticas ao fato de o tempo de jogo ter sido reduzido para caber na grade do programa. Ora, ainda que o ideal seja mostrar o jogo exatamente como ele ocorre, é inegável que este é o tipo de visibilidade que todo esporte procura e deveria estar lutando para conseguir neste momento. Muitas confederações sequer têm um fornecedor de material esportivo e lutam para fechar suas contas, quando deveriam estar em uma situação muito mais confortável.

O fato é que, usando uma expressão do País do Futebol, a bola está quicando na frente do gol, e os gestores esportivos não podem mostrar a mesma displicência da nossa seleção de futebol nos gramados se quiserem aproveitar um momento que, certamente é tardio, mas que talvez nunca tenha se mostrado tão oportuno ao investimento nos esportes olímpicos e paralímpicos. Precisam entender e aceitar que os investimentos de patrocinadores serão muito menores do que se esperava quando o Rio de Janeiro conquistou o direito de sediar os Jogos de 2016, mas que a inércia em nada ajuda a melhorar este quadro, e falta pouco para que o momento passe e as entidades esportivas tenham que lidar com a frustração de não terem aproveitado uma grande oportunidade, a maior que já tiveram. Ou seja, só um pouco de mais do mesmo…

Atleta: o fim tratado como meio

Qual é o limite para a verdadeira disputa por verba de patrocínio que acontece entre atletas, clubes e entidades representativas? Quanto é normal que entidades influenciem negativamente ou impeçam negociações de atletas com empresas interessadas em fazer uso de sua imagem?

Essas perguntas vira e mexe ressoam pelo mundo do esporte ainda que, normalmente, não alto o suficiente para serem escutadas pelo grande público. Em alguns casos são as mais absurdas situações, em que os atletas durante muito tempo, se não por toda sua carreira, pagam para competir enquanto confederações e clubes fazem o possível para não dividir com eles uma parte do bolo.  

Algumas instituições entendem a importância da figura individual do atleta para seus patrocinadores, e servem até como ponte para que esta parceria se concretize e enriqueça campanhas e ações de empresas que apoiam o esporte, além de potencializar o retorno de mídia e a associação de marcas ao esporte. Outras preferem travar verdadeiras guerras, dificultando ou até mesmo impedindo que estas parcerias aconteçam, usando suas estrelas simplesmente como meio para chegar ao patrocínio.  

Exemplos positivos de atletas que representam ou representaram as mesmas marcas que seus esportes ou clubes não faltam, e parecem tão naturais que qualquer ação para impedir algo assim beira à falta de visão estratégica. Jogadores de vôlei e Banco do Brasil, principal patrocinador da Seleção Brasileira por tantos anos, soa tão bem quanto Cesar Cielo e Correios, Neymar e Volkswagen, Nike e Guaraná Antárctica, Falcão e Correios e Banco do Brasil, Fernando Fernandes, da canoagem, e BNDES, e por aí vai… 

Mas ainda que os cases de sucesso sejam muitos, também não são poucos os exemplos de influência negativa. Empresas desencorajadas por confederações a patrocinar seus principais atletas, assim como espaços para patrocinadores individuais extremamente limitados por regras pouco claras ou que mudam de acordo com a conveniência dos mandatários do esporte. Também existe a venda por clubes e confederações de propriedades que são do atleta, e esses são apenas alguns exemplos de como as coisas funcionam nas terras dos coronéis do esporte.  

Surpreendentemente, em 2015, um ano após a realização de uma Copa do Mundo de futebol e às vésperas dos Jogos Rio 2016, no Brasil não são raros os gestores esportivos que ainda não entenderam que suas entidades devem valorizar o atleta e sua imagem. Não se deram conta de que fortalecer atletas não diminui a importância de entidades e, pelo contrário, engrandece o esporte como produto e cria uma potente plataforma para investimento de empresas que o utilizam como ferramenta de marketing. 

Acusar estes dirigentes de defenderem interesses pessoais ou que não tenham exatamente a ver com o crescimento do esporte é tão leviano quanto seria ingênuo pensar que tudo isso acontece simplesmente por falta de capacidade administrativa, por isso cada caso tem que ser analisado com a devida profundidade, mas o fato é que alguma coisa anda muito errada nesta relação quando o assunto é a intervenção institucional nos patrocínios individuais dos atletas.  

O caminho ainda é muito longo até que fique bastante claro que o esporte é de quem o pratica, de quem se esforça diariamente para sobrepor às dificuldades e competir com muito suor, sem abrir mão do sorriso no rosto. As batalhas ainda são muitas até que as instituições entendam que o atleta, em sua atividade, é o fim, e só pode ser tratado como meio pelo patrocinador, que afinal de contas o utiliza como ferramenta para comunicar-se com seu público. E neste ponto as entidades estão na mesma posição, sem que isso signifique que devam competir com seus atletas por cada tostão disponível no mercado, mas sim criar estratégias atraentes para que sejam complementares e com isso atraiam mais investimentos. 

Paradesporto e a competitividade que ultrapassa o limite da ética

O crescimento do paradesporto em todo o mundo vem chamando a atenção do público e de patrocinadores. É como se depois de um longo período de marginalização, finalmente ele tenha sido reconhecido como tão competitivo e empolgante como o esporte “convencional”. Um prêmio justo a entidades que trabalham por seu crescimento, como o Comitê Paralímpico Brasileiro, mas que vem com o grande desafio para evitar uma fraude também conhecida como doping funcional.

Para quem ainda não está totalmente familiarizado com o paradesporto, vale uma explicação simplificada da classificação funcional. Trata-se de uma divisão dentro das modalidades, que tem como critério a funcionalidade do corpo do atleta, considerando a importância que ela tem para a prática daquela atividade específica.  

Usando como exemplo a paracanoagem, atletas que têm funcionalidade apenas nos braços não devem competir com aqueles que têm domínio de tronco. Já estes últimos não competem com quem consegue utilizar as pernas para ajudar a imprimir força ao barco. Claro que esta classificação é complexa e leva em conta uma pontuação para cada parte relevante do corpo para a prática do esporte, e é realizada por classificadores especializados, que estudam o tema e formas de aumentar a precisão deste processo continuamente. 

Mas assim como no esporte “convencional”, a má fé de atletas, treinadores e confederações vem causando uma série de dificuldades para que a competição seja justa, e fingir (isso mesmo, fingir!) ter uma lesão mais limitadora do que aquela que de fato se tem passou a ser um fato não tão incomum quanto desonesto. Mais uma vez usando a paracanoagem como exemplo, nada menos que quatro dos nove finalistas do Campeonato Mundial de 2014 da antiga categoria A, na prova de 200 metros de caiaque masculino, foram reclassificados ou declarados inelegíveis para a modalidade. Ou seja, descobriu-se que eles tinham lesões menos limitadoras que a de um atleta daquela categoria que, falando a grosso modo, deveria ter funcionalidade apenas nos braços, sem uso de tronco e pernas. 

O verdadeiro fiasco que aconteceu em Moscou em 2014 fez com que houvesse uma grande mudança no processo de classificação funcional da paracanoagem. A resposta dos classificadores funcionais foi um processo mais preciso de classificação é um verdadeiro pente fino que começou no Campeonato Europeu de Paracanoagem, na República Tcheca, passou pela Copa do Mundo, na Alemanha, e agora chega ao Campeonato Sul-Americano e Pan-Americano de Paracanoagem, que acontece em São Paulo neste sábado, 20 de junho. A “limpa” não deve parar por aí e espera-se que até o Campeonato Mundial de 2015, que acontece em Agosto, na Itália, o problema seja resolvido. 

O grande objetivo é garantir uma competição justa, com atletas em condições de funcionalidade similares, favorecendo assim o paradesporto e consequentemente aqueles que realmente se empenham e o encaram como uma atividade séria. Exemplos não faltam, e o Brasil é um dos países que mais lutam por um paradesporto cada vez mais correto em relação à classificação funcional. Tanto confederações quanto o próprio CPB estão sempre à frente de iniciativas para coibir fraudes por parte de seus atletas, e é com esta filosofia que vem conquistando um crescimento bastante sólido no cenário internacional, provando que trabalho duro e ética ainda são o caminho para o sucesso.  

Esporte Olímpico, Paralímpico, e o investimento que nunca vem…

O mercado do esporte no Brasil, principalmente quando não estamos falando de futebol, sempre foi muito dependente de ações e patrocínios pontuais para se manter. E, neste contexto, não é necessário ser um gênio para deduzir que os Jogos Olímpicos são o grande momento quando se fala em investimentos. Atletas e entidades esportivas sempre esperaram por este momento como crianças que esperam pelo Papai Noel. Com uma diferença importante: este Natal só acontece de quatro em quatro anos.

Desde que o Brasil conquistou o direito de sediar os Jogos de 2016, uma grande expectativa automaticamente pairou sobre o mundo do esporte olímpico e paralímpico brasileiro. Era como se a redenção por anos de dificuldades estivesse bem ali, ao alcance dos olhos. Remuneração justa e condições de primeiro mundo para os atletas eram tão certas quanto dois e dois. E assim que se encerraram os Jogos de Londres, a frase mais ouvida foi “começaram os Jogos Rio 2016”. Mas esta afirmação continha dois erros graves: 1 – os Jogos Rio 2016 deveriam começar muito antes para chegarmos lá em condições de experimentar um crescimento consistente, robusto, não apenas baseado em criar condições para que atletas já formados conquistem suas medalhas e elevem o Brasil algumas posições no quadro de medalhas, mas sim criando condições para que finalmente o esporte se torne economicamente sustentável e valorize a iniciação e categorias de base, viabilizando assim o tal legado, que a essa altura já chega a doer nos ouvidos; 2 – o Brasil é o País do Futebol. Ponto! Com ou sem 7 a 1…

Mas a quem caberia criar uma nova realidade para o esporte brasileiro? Por parte do Governo, em suas diferentes esferas, ainda que um pouco tardio e sujeito a críticas, houve um importante investimento, principalmente por meio do Ministério do Esporte e empresas estatais, com a construção de centros de treinamento, formação de seleções permanentes, diferentes níveis de bolsas que possibilitaram que muitos atletas passassem a se dedicar exclusivamente ao esporte, patrocínios a confederações, clubes, atletas, incentivos fiscais e por aí vai…

Já no que diz respeito à gestão do esporte, não houve o salto de profissionalismo necessário para se aproveitar plenamente o cenário favorável que se apresenta há pelo menos oito anos, principalmente antes da crise econômica que afeta quase todo o mundo. A transformação do esporte, dos clubes, times e atletas no tal “produto”, aconteceu no Brasil em escala muito menor à exigência de um mercado onde os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 (maior evento esportivo do mundo) teriam que disputar cada centavo com o evento mais importante para o consumidor de esporte brasileiro, a Copa do Mundo de 2014.

O fato é que não parece muito surpreendente que a Copa do Mundo de 2014 tenha começado no mercado brasileiro tão logo acabou a edição de 2010, na África do Sul, e o mesmo não tenha acontecido com os Jogos Olímpicos, ao final de Londres 2012, ainda que a tal frase “começaram os Jogos Rio 2016” tenha sido proferida como um mantra. Também é muito natural que as empresas queiram aproveitar a oportunidade para conquistar visibilidade e clientes com o Rio 2016, e que para isso recorram novamente à velha tática dos patrocínios e ações pontuais. Claro que desta vez os investimentos não serão de seis meses, como em outras ocasiões, mas já estamos a pouco mais de um ano do início das competições e a movimentação que tem acontecido ainda é fraca.

Pode ser, e eu quero acreditar, que o grande legado dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Brasil seja uma profunda reestruturação e profissionalização do esporte em nosso país. Assim, todos nós que trabalhamos nesta área finalmente assumiremos a responsabilidade que nos compete para que ele finalmente torne-se o produto que todos esperamos, menos sujeito à sazonalidade e mais atraente ao investimento de empresas privadas, diminuindo assim a dependência de investimento público.

Entidades X Atletas – a disputa que enfraquece o esporte

O Brasil é um país onde, muitas vezes, as instituições se sobrepõem às pessoas, ainda que sua função seja representá-las. E no esporte não é diferente! Ao longo dos últimos anos algumas situações mostram claramente o quanto ainda é necessário evoluirmos para que os atletas sejam entendidos e tratados da forma correta por aqueles que devem zelar por seus interesses. 

Encontramos situações de profundo desrespeito em confederações, federações, clubes, associações, e por aí vai… Um dos exemplos mais interessantes que eu já presenciei aconteceu com o craque Falcão, do futsal, em 2008, ano em que o Brasil buscava reconquistar sua hegemonia no esporte da bola pesada, depois de ter sido despachado pela poderosa Espanha em 2000 e 2004. Em uma situação como esta, onde não apenas o prestígio está em jogo, como também os contratos de patrocínio, espera-se o máximo foco na vitória e em toda a caminhada rumo ao título, principalmente da Confederação Brasileira de Futebol de Salão. Certo? Mas o que parece óbvio nem sempre é…

Naquele mesmo ano, antes do mundial que aconteceria aqui no Brasil, o Presidente da CBFS representou contra o principal jogador da Seleção Brasileira no Tribunal de Justiça Desportiva por ter participado de um jogo festivo em que atuou pelo Corinthians contra o Pinocho, então campeão argentino, no Parque São Jorge, para promover o Futsal como esporte olímpico. Ou seja, o atleta participou de uma ação sem caráter oficial, a favor de tornar o futsal olímpico, e em troca correu o risco de sofrer uma suspensão de seis meses e ficar fora do Mundial. Por sorte a punição não aconteceu, Falcão jogou e o Brasil foi campeão.

Um caso mais recente e que pouca comoção causou, provavelmente porque ainda há pessoas que insistem em pensar que jogador de futebol tem que se sujeitar a qualquer situação por ganhar bem, foi na saída de Paolo Guerrero do Corinthians. Ele marcou pelo menos dois dos gols mais importantes da história do Time do Parque São Jorge e saiu com a diretoria claramente induzindo a torcida a vê-lo como mercenário, quando na verdade ele apenas exigiu receber as “luvas” à vista caso o clube quisesse renovar seu contrato. E isso parece bastante razoável para um trabalhador que teve que conviver com meses de atraso no pagamento de direitos de imagens. Mas mesmo com toda a importância histórica e os inconvenientes causados pelo próprio clube, os cartolas preferiram que um de seus maiores ídolos saísse sem o devido reconhecimento e, principalmente, respeito.

A verdade é que pouca gente conhece a fundo a rotina de atletas de alto nível. Ainda que esta tenha sido a opção de vida de cada um deles, têm que conviver com muitas privações e dificuldades que passam despercebidas aos olhos do grande público, mas que não deveriam passar pelos de quem vive o esporte diariamente. E esta cegueira, que mais parece com aquele famoso sono de quem dorme no assento preferencial do ônibus, valida a incompetência e os desmandos. Então, aquele que exige o mínimo de condições passa a ser visto como “estrela”, assim como o mínimo de conforto passa a ser exigência descabida.

Mais exemplos? Inúmeros. Em muitos esportes… Em muitas entidades… E isso só vai mudar quando as pessoas que comandam as entidades entenderem que estão ali para dar condições para que o esporte aconteça, e, principalmente, quando se derem conta de que os verdadeiros protagonistas do esporte suam a camisa diariamente e não usam gravata para trabalhar.